Informativo
Segundo dossiê, preservação do sistema financeiro minou políticas sociais e abriu caminho para escalada conservadora.
QUAL O PAPEL DAS POLÍTICAS NEOLIBERAIS NO SURGIMENTO DO FASCISMO?
O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
publica, nessa terça-feira (7), o dossiê “O
mundo oscila entre crise e protestos”, em que aponta como as
políticas econômicas dos últimos 50 anos ocasionaram uma forte insatisfação
popular, que vem sendo cooptada por movimentos neofascistas.
A proteção do mercado financeiro e a falta de
atenção a políticas públicas são as responsáveis diretas pela falta de
estruturas que atendam às necessidades da população. Emprego, alimentação,
educação, saúde e alívio da pobreza estão em segundo plano para muitos
governos.
Somada à falta de articulação da
esquerda na busca por saídas e alternativas, a fórmula joga até mesmo as nações
mais desenvolvidas em um equilíbrio frágil.
O relatório aponta que a crise de crédito de
2008 gerou um esforço em escala global para impedir o colapso do sistema
financeiro. Liderada pelo Federal Reserve Bank dos EUA, a caminhada para
estabilizar os mercados investiu recursos no resgate das instituições
financeiras, mas manteve de lado problemas sociais agudos.
“Nenhum fluxo de capital chegou para
alimentar as quase 1 bilhão de pessoas famintas em todo o planeta. (…) Não
houve uma conferência séria de líderes mundiais para tratar dessa questão; nada
parecido ao pânico que ocorre quando os mercados financeiros cambaleiam”,
defende o dossiê.
Já do lado dos setores da sociedade que
pensam outro modelo de desenvolvimento, o autor do dossiê e diretor do Instituto
Tricontinental, Vijay Prashad, acredita que ainda que
a fragilidade da esquerda tenha razões estruturais – como o
colapso das fábricas, o surgimento de empregos precários permanentes e a crise
agrária –, é preciso repensar novas formas de organização popular.
“Temos que estudar as novas maneiras de
organizar a classe trabalhadora e o campesinato que funcionam em vários lugares
e compartilhar exemplos desse tipo em todo o mundo. Parte da penalidade
enfrentada pela esquerda é a guerra de informações. Com o poder do dinheiro por
trás da mídia, cria-se uma interpretação dos fatos da classe dominante, que é
apresentada como uma interpretação universal. Precisamos contestar essa visão”,
aponta.
TERRENO
FÉRTIL PARA O NEOFASCISMO
Se o principal arcabouçou ideológico dos
regimes de austeridade foi, inicialmente, o neoliberalismo, o descrédito dessas
ideias fez crescer o neofascismo. O dossiê do Instituto
Tricontinental avalia que, para boa parte da humanidade, o pensamento que
favorecia os proprietários minava os horizontes sociais.
Ideias privatizantes e o discurso do
empreendedorismo como solução perderam força e os movimentos de esquerda do
mundo não conseguiram canalizar o descontentamento em força política.
“Foi nessa vazio que os neofascistas
entraram. O que os une é sua atitude em relação à desolação social. Sua
resposta aos problemas sociais é prejudicar os vulneráveis: migrantes,
comunidades indígenas, homossexuais e outros. Em nossa época, os neofascistas
usam a ideologia do ‘outro’ para fazer um setor vulnerável parecer maior e
melhor. Parte desse turbilhão de toxicidade é o surgimento das ‘guerras
comerciais’”, analisa o documento, que completa: “Para Trump, é mais fácil
culpar o México e a China pelo desemprego nos Estados Unidos do que reconhecer
a lógica de crise dentro do capitalismo.”
De acordo com Vijay Prashad, a ascensão atual
do neofascismo não pode ser comparada ao surgimento de regimes conservadores e
nacionalistas entre as duas grandes guerras. No século passado, havia um
contexto de deslocamento econômico, humilhação nacional e ascensão da
esquerda.
“Acreditamos que a extrema direita aparece
agora porque é o liberalismo, com suas políticas neoliberais, que se rendeu, e
a classe dominante não tem mais acesso ao controle de massa por meio de
partidos liberais; a classe dominante tem, principalmente, a opção da extrema
direita de manter o controle sobre as massas.”
Nem mesmo a nova ordem bipolar, entre Estados
Unidos e China, que começa a tomar forma, parece representar uma possibilidade
de mudança no regime de austeridade. O dossiê aponta para um centro de
gravidade da ordem internacional oscilando entre Washington e Pequim. Mas as
previsões indicam que esses dois poderes chegarão a algum entendimento sobre as
organizações internacionais e que o sistema financeiro mundial ficará
relativamente imune a essas mudanças.
FUTURO
INCERTO
Ao analisar as expectativas de
desenvolvimento dos países frente a essa situação, o dossiê aponta um cenário
de difícil reversão. Bancos centrais e agências da Organização das Nações
Unidas (ONU) preveem que os próximos anos no Ocidente e no Sul Global serão
caracterizados por baixo investimento de capital nos setores de manufatura e
serviços, produtividade estagnada e baixas taxas de crescimento. Em
consequência, desemprego e colapso das instituições sociais serão
aprofundados.
Com previsões de baixo crescimento para 2020
e desaceleração em 2021, entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI)
pregam a continuidade das políticas de austeridade e a busca pelo fim das
tensões comerciais.
São posições políticas que o
documento considera incoerentes, já que as tensões entre nações são
justamente causadas pela falta de investimento social e foco na preservação do
sistema financeiro.
Segundo o relatório, “essas tensões são um
espelho do esvaziamento da sociedade por causa da austeridade. Um levou ao
outro, e ambos se alimentam”.
Fonte:
Brasil de Fato
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