Informativo
Presidente Lula (PT), durante sessão de abertura da 3º Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) em Nice - França | Foto: Ricardo Stuckert / PR
BRASIL DENUNCIA TARIFAS DE TRUMP NA OMC E ALERTA PARA USO POLÍTICO DO COMÉRCIO
Brasil denunciou o uso de tarifas
como forma de coerção política em reunião da OMC. Discurso teve apoio de 40
países, incluindo China, Rússia, Índia, Canadá e União Europeia.
Por Lucas
Toth
O governo
brasileiro denunciou nesta quarta-feira (23), em reunião do Conselho Geral da
Organização Mundial do Comércio (OMC), o uso político de tarifas comerciais por
parte dos Estados Unidos.
O Brasil obteve apoio de cerca de 40 países, incluindo China,
Rússia, Índia, Canadá e a União Europeia.
Sem mencionar diretamente o nome de Donald Trump, o Itamaraty
acusou a prática de representar uma tentativa de interferência em assuntos
internos e uma ameaça à estabilidade do comércio internacional.
A manifestação ocorreu em Genebra e foi conduzida pelo
embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e
Financeiros do Itamaraty.
Segundo ele, a imposição de tarifas arbitrárias, como as
anunciadas por Trump contra produtos brasileiros, ameaça lançar a economia
global em uma espiral de preços altos e estagnação.
No centro da denúncia está a tarifa de 50% anunciada por Trump
sobre produtos brasileiros, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto. O
ex-presidente norte-americano vinculou publicamente a medida à forma como o
Brasil tratou Jair Bolsonaro, aos supostos “ataques às eleições livres” e à
“falta de reciprocidade” nas relações comerciais.
Para o governo brasileiro, trata-se de uma violação flagrante
das regras da OMC.
Durante o discurso no plenário da OMC, o embaixador brasileiro
alertou que “as negociações baseadas em jogos de poder são um atalho perigoso
para a instabilidade e a guerra”.
Ele afirmou que as tarifas estão sendo utilizadas como
ferramentas de coerção política, em detrimento do sistema multilateral baseado
em regras comuns.
Segundo Gough, a prática rompe princípios históricos do comércio
internacional, como o tratamento da nação mais favorecida e a não
discriminação. “Essas medidas levantam questões fundamentais com relação à
previsibilidade jurídica e ao equilíbrio das condições de acesso ao mercado
negociadas há décadas no âmbito do GATT [Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio]
e da OMC”, afirmou.
O diplomata também denunciou que, ao paralisar o sistema de
solução de controvérsias da OMC, os Estados Unidos fragilizam ainda mais a
governança comercial global. O Brasil defendeu a retomada do funcionamento
pleno do órgão e pediu esforços coletivos pela reforma estrutural da entidade.
Apoios e
articulação internacional pela reforma da OMC
A posição brasileira foi apoiada por cerca de 40 delegações,
incluindo potências como China, Rússia, Canadá, Índia e os países da União
Europeia. A China, em sua intervenção, apresentou dados alarmantes: 19,4% das
importações mundiais estão atualmente submetidas a tarifas elevadas, ante 12,5%
há seis meses. O volume de comércio afetado já chega a US$ 2,7 trilhões.
Pequim também criticou acordos bilaterais recentes firmados
pelos EUA, como o caso da Indonésia, que aceitou tarifas de 19% para seus
produtos em troca de entrada livre para bens norte-americanos. Para a China e o
Brasil, essas práticas aprofundam a fragmentação do sistema e violam os
princípios da OMC.
Nos bastidores, o embaixador brasileiro se reuniu com a
diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, e com outras delegações-chave,
buscando apoio à proposta brasileira de uma reforma ampla da organização.
“Ainda temos tempo para salvar o Sistema Multilateral de Comércio”, afirmou
Gough.
Brasil
mantém aposta no diálogo, mas acena com reação
Apesar do tom crítico, o governo brasileiro reiterou que
continuará a priorizar o diálogo com os Estados Unidos. O Brasil enviou carta
formal a Washington solicitando negociações e possíveis exceções à tarifa. Até
o momento, não houve resposta oficial, mas o Itamaraty não descarta uma missão
diplomática a Washington nos próximos dias.
Caso as negociações fracassem, o Brasil poderá recorrer ao
mecanismo de solução de controvérsias da OMC — mesmo com seu funcionamento
prejudicado pelo boicote dos EUA. “Vamos recorrer a todos os meios legais
disponíveis para defender nossa economia e nosso povo”, disse Gough.
Internamente, o governo já se prepara para respostas mais
contundentes. Foi criado um Comitê Interministerial de Negociação e
Contramedidas Econômicas e Comerciais, coordenado pelo MDIC com participação da
Fazenda, da Casa Civil e do Itamaraty. Além de tarifas de retaliação, o Brasil
avalia aplicar sanções sobre propriedade intelectual e produtos culturais
norte-americanos, com base na nova Lei da Reciprocidade.
Fonte:
Portal Vermelho
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