Informativo
BOLSONARO NÃO PODE SAIR IMPUNE DA CONDUTA QUE PROVOCOU MORTES, DIZ JORNALISTA
O
Maranhão é o estado com, proporcionalmente, o menor número de mortes pelo novo
coronavírus no Brasil. Até essa terça-feira (16) eram 685 mortos por milhão de
habitantes – pouco mais do que a metade do índice nacional, de 1.138 mortos por
milhão. Amazonas (com 2.400 mortos por milhão), Rio de Janeiro (1.821) e
Roraima (1.576) são as unidades da federação que lideram essa triste
estatística.
Desde abril do ano passado, o jornalista e escritor Wagner
William passou a observar e apurar cada movimento do governo maranhense na
gestão da crise sanitária. No recém-lançado livro A Operação
Secreta Etiópia-Maranhão – A Guerra dos Respiradores no Ano da Pandemia (Editora
Vestígio), ele esmiúça os atos que explicam o relativo sucesso do estado no
combate à covid-19.
Isso vai desde o fato de o Maranhão ter sido o primeiro estado
brasileiro a decretar lockdown – em 5 de maio – até a cinematográfica operação
que empresta título à obra. Em meio a uma disputa mundial por respiradores,
depois de ter negociações atravessadas pelo governo federal, o estado montou
uma operação logística especial para conseguir os esquipamentos.
Com investimento de R$ 6 milhões e a participação de 30
pessoas, o governo maranhense conseguiu trazer 107 respiradores e 200 mil
máscaras da China em abril. Uma escala na Etiópia foi planejada para
que não houvesse risco de confisco do material no meio do caminho.
“Era uma história muito inacreditável e, ao mesmo tempo, muito
surpreendente”, diz o jornalista em entrevista à DW Brasil. “Mas [acredito que]
os números refletem não somente a operação, mas a filosofia do governo estadual
de defender a vida e a ciência.”
DW
BRASIL: O QUE O LEVOU A MERGULHAR NESSA HISTÓRIA?
Wagner
William: No dia 16 de abril, a Folha [de
S. Paulo] publicou uma matéria com essa coisa meio inacreditável de
como o governo do Maranhão teve de driblar o governo federal para comprar
respiradores numa pandemia. Achei revoltante. Quatro dias depois foi publicada
outra notícia, dando conta de um bloqueio, do Ministério da Saúde, de uma
compra que o Maranhão havia realizado em janeiro. [A operação] foi
inacreditável, mas demonstra um desespero de um estado que percebeu que não
teria apoio do governo federal, teria de se virar sozinho.
O Maranhão só é o melhor estado no combate, nos números da
pandemia, por decisões de seu governador [Flávio Dino, do PCdoB]. Assim como o
Brasil está sendo imunizado por decisão de outro governador, o de São Paulo
[João Doria, do PSDB]. Ambos, tanto o que trouxe a [primeira] vacina, quanto o
que trouxe os respiradores, ideologicamente, não têm ligação nenhuma, mas
reforçam que foi necessário que os estados tomassem providências. Porque se
dependesse do governo federal, o número de mortes seria bem maior.
O seu
livro parte da operação para detalhar a maneira como o governo maranhense
conduziu a pandemia ao longo de 2020. Qual a síntese, então?
ra uma história muito inacreditável e, ao mesmo tempo, muito surpreendente.
Chequei várias vezes os detalhes, parecia negócio de espionagem. A atuação do
governo maranhense foi perfeita. Hoje, é o estado com menos mortes por milhão.
Mesmo tendo um dos piores PIBs do país [17º, em dados de 2018], um dos últimos
IDHs [penúltimo, conforme dados de 2017]. Diante dessa proeza, não há o que
questionar quanto à atuação do governo do estado maranhense.
Mas [acredito que] os números refletem não somente a operação,
mas a filosofia do governo estadual de defender a vida e a ciência. Não posso
falar somente da operação. Porque [os números melhores] se explicam pelo fato
de que o Maranhão não se autossabotou depois, manteve uma linha de ação a favor
da vida, da ciência, sempre buscando resultados. Neste contexto, o livro
evoluiu naturalmente.
O que
foi a operação Etiópia-Maranhão?
O governo do Maranhão resolveu acompanhar com atenção a pandemia desde o
início, por isso ainda em janeiro [de 2020], eles determinaram a compra de
respiradores, de uma empresa de Santa Catarina. Em 19 de março, eles receberam
um ofício do Ministério da Saúde confiscando os respiradores que iam ser
entregues [com base da na lei 13.970/2020, que dispõe sobre medidas para
enfrentamento da emergência de saúde pública decorrente do coronavírus,
o governo federal havia requisitado todos os equipamentos]. Ao mesmo
tempo, o voo que traria os respiradores para o Consórcio Nordeste [criado em
2019 para integrar os nove Estados da região] ficou em Miami, porque, ao
que tudo indica, empresas norte-americanas haviam comprado o material,
produzido da China, em pleno voo.
Então,
o governo maranhense passou a tentar comprar diretamente da China. A primeira
reserva foi bloqueada em seguida, porque empresas da Alemanha compraram. A
segunda, foi bloqueada por norte-americanos. Temendo um colapso, o governo
procura um grupo de empresários. Essa foi uma grande sacada [a parceria com a
iniciativa privada]. Eles começaram a administrar essa compra. O grupo
empresarial encontrou uma empresa [chinesa], colocou seus funcionários lá.
Esses funcionários acompanharam e foram retirando os respiradores conforme eles
eram produzidos. E guardando em um depósito, um galpão, para evitar que
qualquer outro interessado visse e tentasse atravessar.
Com os respiradores prontos, havia o receio de confisco no voo
ou na escala.. Então [por meio de uma importadora brasileira] aconteceu um
lance de sorte, que foi a Ethiopian Airlines. Eles tiraram os bancos da
aeronave, transformando seu avião em cargueiro e se comprometeram a entregar, o
que era raríssimo naquele momento. O voo saiu da China, fez escala na África e
chegou a São Paulo. Com os 107 respiradores e as 200 mil máscaras.
O governo
federal atrapalhou o Maranhão?
O governo Bolsonaro atrapalhou e foi um dos principais motivadores dessa
operação. O Ministério da Saúde confiscou uma compra que o Maranhão tinha feito
em janeiro de empresas brasileiras, de 68 respiradores. Aí foi preciso realizar
uma operação realmente secreta, detalhada, e, é bom que se diga isso, com apoio
do empresariado maranhense — eles ajudaram e participaram decisivamente.
Qual
sua avaliação sobre a gestão federal da crise sanitária?
O governo Bolsonaro é isso: três ministros da saúde, sendo que o
último ficou interino por meses; faltou respirador; faltou kit intubação, que
são os sedativos e anestésicos utilizados no procedimento; milhares de testes
perderam a validade; faltaram cilindros de oxigênio; e tem a negação da vacina.
Nem preciso dar minha opinião. Os fatos estão aí. Não tem como reescrever a
história, basta observar os fatos para que esse governo seja analisado quanto à
sua culpa inquestionável em relação à pandemia.
Há movimentos para se fazer a CPI da Pandemia. Acho que os crimes que foram
cometidos durante o enfrentamento da pandemia não podem ficar impunes, esses
não. Escândalo de corrupção já está no nosso DNA, mas esse [tipo de crime] não
pode [ser esquecido], porque a conduta do presidente acabou provocando muitas
mortes. Não pode sair impune.
Não deveria ter havido essa operação [feita pelo governo
maranhense para conseguir os respiradores]. O que deveria ter havido era um
comando [federal] da crise. Mas a natureza preenche um vácuo. Se não há
comando, não há liderança, é cada um por si. Como se viu no caso da vacina, um
desespero total.
Fonte: DW
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