Informativo
A COVID-19, O AUXÍLIO EMERGENCIAL E A ESTRATÉGIA DE BOLSONARO
Por André Cintra
O
presidente Jair Bolsonaro “entendeu vários de seus pontos fracos e tem
trabalhado neles”. É o que apontam pesquisas realizadas por Esther Solano e
Camila Rocha, baseadas sobretudo nos eleitores bolsonaristas e detalhadas em
artigo de Esther publicado no site da revista CartaCapital.
Conforme
o texto, a renda emergencial foi o gatilho para o aumento da popularidade
presidencial, sobretudo no Nordeste. “Camila Rocha e eu realizamos entrevistas
com integrantes das classes C e D desesperados por terem perdido o emprego e
com muito medo da crise econômica”, explica Esther. “Muitos reconhecem a
irresponsabilidade de Bolsonaro na pandemia, mas são os R$ 600 que permitem a
sobrevivência. A maioria não faz ideia de que esta medida seja de autoria da
oposição. É o governo que possibilita pôr comida na mesa.”
Na
visão das pesquisadoras, o impacto do auxílio mostrou a Bolsonaro que o governo
pode ampliar sua base de apoio. “Bolsonaro entendeu que, para manter ou
aumentar sua popularidade, os R$ 600 são um elemento fundamental – daí também
suas viagens ao Nordeste, próxima fronteira eleitoral a atacar. A questão é que
o auxílio emergencial entra em rota de colisão com a agenda do ministro Paulo
Guedes, e sabemos que Guedes é imprescindível para Bolsonaro manter o apoio dos
empresários e do capital nacional e internacional.”
Para
Esther, o presidente e seu ministro da Economia podem chegar a um “meio-termo”,
mantendo o auxílio – “mesmo com valores mais baixos” – intensificando a agenda
de privatizações. “O auxílio poderia se fazer compatível com as reformas de
Guedes”, escreve a pesquisadora.
Outra
razão para a popularidade crescente de Bolsonaro é a moderação. “Uma das
críticas que mais aparecem entre os bolsonaristas entrevistados por nós é o
fato de o presidente ser violento demais. Teria um tom autoritário e polêmico
que em nada combina com o decoro e a moderação exigidos pelo cargo. Durante a
campanha eleitoral, o tom agressivo foi tolerado e, inclusive, comemorado. Mas
muitos desses mesmos bolsonaristas que o aplaudiam hoje dizem que, no governo,
Bolsonaro não pode continuar a agir dessa forma”, diz Esther.
Ciente
disso, “Bolsonaro entendeu o recado e parece que se autodomesticou ou permitiu
ser domesticado. Tem fechado a boca e com a boca fechada sua popularidade
sobe”. Ao mesmo tempo, os filhos desapareceram. “Até entre as bases
bolsonaristas mais radicais o papel dos filhos é muito mal avaliado. Estes são
definidos como ‘moleques’, ‘irresponsáveis’ e principais fatores de
instabilidade do governo”, afirma Esther. “Mas os filhos se tornaram quase
invisíveis – diminuiu muito seu papel nas redes sociais. Outros que fecharam a
boca e fizeram a popularidade do pai subir.”
Esther Solano também aponta as limitações da
esquerda – e do conjunto da população – no diálogo com os brasileiros. A seu
ver, o discurso do “campo progressista” ecoa pouco – “não chega a grande parte
da população”. O motivo: “Não temos canais de comunicação (não temos a mídia,
não temos as redes e não temos o território). Nas poucas vezes em que o
discurso consegue chegar, é visto com enorme desconfiança, pois nós, como
interlocutores, fomos criminalizados e descartados nesses últimos anos.”
Fonte: Portal Vermelho
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