Informativo
Compreender e agir nessa teia de contradições tecida pelo bolsonarismo é o grande desafio da oposição
BOLSONARO JOGA COM O GOLPISMO E NÃO É PERNA DE PAU
Por Osvaldo
Bertolino*
As atitudes insanas do presidente Jair
Bolsonaro não são apenas manifestações de sandices. Ele nunca escondeu seu
propósito e não renegou as fontes inspiradores do seu projeto de poder – os
porões nauseabundos da ditadura militar. Em sua trajetória política, jamais se
desviou do rumo que o levou a ingressar na carreira parlamentar. Como
presidente da República, tem feito exatamente o que sempre disse que faria.
O
primeiro ponto a ser considerado é que ele, mesmo renegando as instituições que
sempre utilizou, não atentou contra a ordem democrática a ponto de se projetar
como alternativa de poder. Algo semelhante, guardadas todas as proporções, ao
que fez Adolf Hitler após publicar sua plataforma política, o livro Minha Luta (Mein
Kampf), que seguiria fielmente até o fim.
VIAS DO
GOLPISMO
A opção
por Bolsonaro também se deu numa conjuntura conturbada, após a marcha do golpe,
iniciada em meadas de 2013, conseguir derrubar a ex-presidenta da República
Dilma Roussef com a fraude do impeachment de
2016. A arquitetura desse processo se deu com a Operação Lava Jato forjando
fraudes em série e chegou à monstruosa prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, a mando de do então juiz de primeira instância Sérgio Moro.
Essa
foi uma das vias que conduziram o golpe até Bolsonaro. A outra foi o programa
econômico que primeiro recebeu o nome de “Ponte para o futuro”, assinado pelo
usurpador Michel Temer antes do golpe, e depois adotou novos contornos pelas
mãos do obtuso Paulo Guedes. Esses fatores confluíram para o bolsonarismo, que
ganhou envergadura com a evolução da marcha golpista, principalmente após a
covarde prisão de Lula.
Os
comandantes dessas duas vias, Sérgio Moro e Paulo Guedes, assumiram os postos
de ministros da Economia e da Justiça, respectivamente, como fiadores de
Bolsonaro. Essa tríade deu forma a esse projeto de poder, que Bolsonaro agora
tenta usurpar. Resta saber como se comportará o projeto Lava Jato, com seu
chefe, Sérgio Moro, enfiado na toca aguardando o andamento da tormenta. Assim
como Paulo Guedes.
Essas
duas vias do golpismo não aparecem explicita e sistematicamente nessa investida
de Bolsonaro contra a institucionalidade democrática. Mas elas certamente
entrarão em cena à medida que as contradições se acirrarem. O presidente optou,
abertamente, por se isolar, criando obstruções com todo o espectro da
legalidade democrática ancorada na Constituição.
PARLAMENTARISMO
BRANCO
Começa
pelos demais Poderes da República. Para governar sob a égide da democracia,
Bolsonaro teria de cultivar relações institucionais com o Legislativo e o
Judiciário. Ele faz o oposto. Com isso, acumula contradições, que geram
antagonismos e impasses políticos. Como toda crise, essa também terá uma
solução. E Bolsonaro se movimento para buscar apoios à sua aventura.
Sua
tática é de confrontar, de maneira cada mais acirrada, os presidentes da Câmara
dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre. Já é forte
no submundo das redes sociais a tese de que o Legislativo obstruiu a
governabilidade de Bolsonaro ao se contrapor à agenda do Executivo.
O
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a dizer, em entrevista publicada
no domingo (19) pelo jornal O Estado de S. Paulo,
que o Brasil tem um sistema de “parlamentarismo branco”, com o Congresso
Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) “atuando mais efetivamente”.
O
que existe, no fundo, é o confronto entre a criminalização da política pelos
padrões das fraudes da Lava Jato – endossada pelo bolsonarismo e, de certa
forma, por Paulo Guedes – e as regras da institucionalidade democrática. O que
eles chamam, pejorativamente e com fins propagandísticos ideológicos, de
“classe política” são os que estão se opondo, em alguns aspectos fundamentais,
à agenda de Bolsonaro.
MAR DE
CONTRADIÇÕES
Outro
entrave que pode se levantar é o Poder Judiciário. Na composição do STF existem
ministros que não compactuam com os métodos autoritários do presidente, como
ocorreu com as críticas no caso do ato golpista de domingo em Brasília. Os
ministros Luiz Roberto Barroso, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello se
pronunciaram imediatamente após a atitude insana de Bolsonaro.
Outro
ponto de oposição às ações do presidente é a maior parte da mídia. Quem
controla com mão de ferro as prerrogativas constitucionais sobre liberdade de
imprensa, de expressão e de difusão de pensamento, os monopólios midiáticos –
sobretudo o Grupo Globo –, estão, majoritariamente, contra Bolsonaro. Esse é
mais um ponto da institucionalidade que o bolsonarismo tenta estrangular.
Forma-se,
assim, uma mar de contradições no país. Bolsonaro, como tem sido a prática da
extrema direita na história, se aproveita dos efeitos da crise econômica
global, fortemente agravada com a pandemia do coronavírus – a Covid-19 –, para
construir saídas milagrosas, à base do autoritarismo e do golpismo.
Busca manter a sua base social entre os mais
carentes, utilizando o aparato ideológicos que interagem com o cotidiano das
pessoas – algumas seitas fundamentalistas e o submundo social, sobretudo –, ao
mesmo tempo em que alinha sua diplomacia aos ditames da geopolítica dos Estados
Unidos. Compreender e agir nessa teia de contradições é o grande desafio da
oposição.
*Osvaldo
Bertolino é jornalista e historiador
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