Informativo
15.06.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Reunião bilateral com o Presidente da França, Emmanuel Macron, em Évian-les-Bains - França. Foto: Ricardo Stuckert / PR
NO G7, LULA ARTICULA PARCERIAS SOB A SOMBRA DO CERCO COMERCIAL
Convidado por Macron, presidente busca
acordos com Japão e Suíça para mitigar os efeitos do protecionismo de Trump e
do recente veto da UE à carne.
Por Cezar Xavier
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou nesta segunda-feira (15) em
Évian-les-Bains, na França, para a Cúpula do G7. Convidado pelo anfitrião
Emmanuel Macron, Lula integra um grupo seleto de economias emergentes — ao lado
de Índia, Coreia do Sul, Egito e Quênia — chamado para debater “novas parcerias
e solidariedade internacional”.
Contudo, por trás da diplomacia multilateral, a missão
brasileira em território francês é movida por um senso de urgência geopolítica:
contornar o cerco comercial imposto por Washington e Bruxelas.
O xadrez
comercial e o escudo contra o protecionismo
A participação de Lula no G7 ocorre em um dos momentos mais
hostis para o comércio exterior brasileiro nas últimas décadas. Nos Estados
Unidos, o governo de Donald Trump não apenas manteve a investigação do USTR que
resultou em uma taxação de 25% sobre produtos brasileiros — sob a alegação de
que o Pix prejudica operadoras de cartão americanas —, mas também deu um passo
inédito ao designar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas
Estrangeiras (FTO). Na Europa, a União Europeia oficializou o veto à importação
de carnes, peixes e mel do Brasil, com efeitos a partir de setembro.
A análise do cenário indica que o Planalto adotou uma estratégia
de “movimento lateral”. Em vez de confrontar diretamente Trump ou a UE nos
discursos da cúpula, Lula busca diversificar suas alianças para criar um escudo
geopolítico. É nesse contexto que ganha importância central a reunião com a
primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi. O Brasil pretende lançar as bases
para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e os japoneses, aproveitando
a janela de oportunidade aberta pela guerra comercial americana. Na mesma
toada, o encontro com o presidente da Suíça, Guy Parmelin, visa destravar e
fortalecer o acordo do bloco sul-americano com a EFTA (Associação Europeia de
Livre Comércio).
Bilaterais
estratégicas e a sombra de Trump
A agenda bilateral de Lula já começou intensa antes mesmo da
abertura oficial dos trabalhos. Na fronteira entre a França e a Suíça, o
presidente reuniu-se com Parmelin, alinhando posições sobre transição
energética, minerais críticos e biotecnologia. Já com Emmanuel Macron, o tom
foi de cooperação em áreas de defesa (como o programa de submarinos) e
soberania digital (supercomputadores), mas sem esconder as fricções. Macron,
que historicamente trava o acordo Mercosul-UE para proteger agricultores
franceses, viu o bloco europeu impor barreiras sanitárias aos produtos
brasileiros, uma contradição que o Itamaraty classifica com “surpresa e
preocupação”.
Nos bastidores, a presença de Donald Trump no G7 paira sobre o
evento. O Palácio do Planalto descartou pedir uma nova bilateral, argumentando
que as equipes técnicas ainda não apresentaram as propostas prometidas para
resolver o impasse tarifário desde o encontro de maio na Casa Branca.
O cenário global também é ditado pelo recente anúncio de um
acordo entre EUA e Irã, cujos desdobramentos sobre o programa nuclear iraniano
e a reabertura do Estreito de Ormuz serão termômetros para a segurança
energética global, tema que afeta diretamente a matriz industrial brasileira.
Governança
global, IA e a batalha dos minerais críticos
Nos painéis deliberativos, Lula assumirá o papel de voz do Sul
Global. Na terça-feira (16), ao debater parcerias internacionais, deve cobrar a
ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) e a reforma de
instituições como a ONU e a OMC, criticando o unilateralismo sem citar
nominalmente os EUA.
O tema dos minerais críticos, no entanto, promete ser o campo de
batalha mais tenso. Enquanto os EUA e a China disputam a hegemonia desses
insumos vitais para a transição energética, o Brasil chegará a Évian com uma
tese firme: a agregação de valor no local de extração. O Planalto rejeita a
lógica de apenas fornecer matéria-prima barata para as potências ocidentais e
asiáticas.
Por fim, no almoço sobre Inteligência Artificial, a comitiva
brasileira deve ecoar a demanda global por regulação e responsabilização das big
techs, alinhando-se aos anseios de nações que buscam soberania
digital. Entre cafés diplomáticos e sessões de trabalho, a 10ª participação de
Lula no G7 reflete um Brasil que, encurralado pelo protecionismo do Norte
global, busca no Sul e na Ásia as saídas para o seu desenvolvimento.
Fonte:
Portal Vermelho
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