Informativo
Valdenice ladeada pelos irmãos, com Jair e Flávio na festa de aniversário dela. A irmã dos milicianos Alan e Alex assinou cheques da campanha de Flávio | Foto Instagram
BOLSONARO OPERA NO LIMITE PARA MANTER O ÍMPETO DAS MILÍCIAS DIGITAIS
Por Orlando Silva*
Em “Argumento”,
Paulinho da Viola nos aconselha sobre como agir diante das adversidades: “faça
como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar.”
O presidente Jair Bolsonaro aprontou das suas
ontem, somando-se a movimentos de extrema-direita que convocaram um ato
político contra o Congresso Nacional para o próximo dia 15/03.
Pode? Não! Não pode.
O artigo 85, inciso II, da Constituição
Federal é explícito. “São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da
República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, os que
atentem contra: o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do
Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação.”
O presidente da República conhece – ou
deveria conhecer – a Constituição e sabe o que fala e faz. Sabe que poderia até
ser afastado da Presidência.
Seus movimentos são calculados.
O fato é que a tensão no ambiente político,
com Bolsonaro, é o novo normal.
Ele opera no limite para manter o ímpeto de
suas milícias digitais.
Bolsonaro navega no mar alto da antipolítica,
fomentada por décadas, e que levará um tempo para voltar a níveis toleráveis –
se é que voltará algum dia.
Exercita seus planos autoritários numa
conjuntura de crise da democracia liberal, tempos em que tudo está em questão.
Bolsonaro reage aos movimentos do Congresso
Nacional.
As novas regras do Orçamento trouxeram para o
Brasil práticas de democracias maduras, em que cabe ao Parlamento
pronunciamentos decisivos sobre as contas públicas.
Mecanismos como esses não combinam com
déspotas.
O ato do dia 15 será mais um round da luta de
Bolsonaro contra o Parlamento e o Supremo Tribunal Federal.
Esse embate é quase diário, basta ver as MPs,
PLNs e os vetos. Ele multiplica suas frentes de batalha.
Veremos até quando conseguirá lutar o tempo
todo em tantas frentes.
A resistência anti-Bolsonaro ainda está
dispersa e desorganizada.
A divisão fundamental está na visão sobre a
economia.
A entrevista de Edmar Bacha, na Folha
de São Paulo, tem grande importância para esclarecer possíveis
tendências.
Quando ele aponta que “a agenda liberal deste
governo não vale para empresários” e que em outras recessões a retomada foi “em
forma de V” e atualmente “estamos patinando em L e não conseguimos sair”, quer
dizer que a recuperação é incerta e não anima os agentes econômicos.
Os resultados do agronegócio são bons apesar
do governo, que atrapalha bastante; a indústria segue na UTI, acumulando
resultados adversos.
Só o capital financeiro segue intocável.
É preciso cautela, frieza e objetividade.
Os ataques ao Congresso Nacional são golpes
contra a democracia e necessitam de respostas à altura.
O decano do Supremo, ministro Celso Mello, se
posicionou de maneira enérgica quanto à convocação de ato hostil aos poderes
feita por Bolsonaro.
Diversas lideranças políticas e sociais, de
diferentes matizes ideológicos, também condenaram prontamente o ataque.
O Parlamento precisa cadenciar suas
iniciativas.
Essa provocação de Bolsonaro cai como uma
luva para que a agenda da Câmara e do Senado dialogue mais com a sociedade e vá
além dos dogmas liberais.
Pacientemente, vamos fazer o degelo das
relações que andavam interditadas. E encontraremos novas conexões para tecer
uma rede, uma barreira intransponível para proteger nossa frágil democracia.
À política também se aplica o ensinamento do
velho marinheiro: “Sem preconceito, sem mania de passado, sem querer ficar do
lado de quem não quer navegar.”
*Orlando
Silva é deputado federal pelo PCdoB-SP
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