Informativo
Ronaldo Carmona: “Brasil perdeu a capacidade de ação. Reverter ações de Temer será primeiro passo”
Ronaldo Carmona,
cientista social e membro do Comitê Central do PCdoB, é um aliado antigo dos
movimentos progressistas, tendo representado a intelectualidade brasileira
inúmeras vezes em encontros internacionais e debates sobre os rumos do Brasil.
Em julho de 2017, Carmona estendeu sua atuação à CTB ao produzir a nota técnica
“A crise na Indústria e os trabalhadores”, em que ele e a Central avaliam os
impactos da crise na indústria e o avanço do desemprego.
O documento pode ser
lido na íntegra CLICANDO
AQUI.
Diante do aniversário
do governo ilegítimo de Michel Temer e dos resultados econômicos do segundo
trimestre de 2017, o Portal CTB decidiu entrar em contato com Carmona novamente
para reavaliar os caminhos que o Brasil tem tomado. O pesquisador, no entanto,
não foi muito otimista: “Enquanto todo mundo protege a própria economia, nós
entregamos a nossa”. Para ele, o próximo presidente receberá um país em
situação de “terra arrasada”.
Confira a entrevista
completa.
Portal CTB: O governo
Temer completou na semana passada um ano de vigência. Qual a sua avaliação
desse período?
Carmona: O governo Temer
vendeu para a sociedade uma ideia de reposicionar o país. Essa foi a base que
uniu apoio para o impeachment. O que vemos agora, no entanto, é que ocorreu o
contrário. Em todos os indicadores, você observa retrocesso - e não apenas na
questão econômica, mas em todas as áreas. Existe uma decomposição das bases do
projeto nacional, do conjunto de setores estratégicos que fundamentam a
economia. Eles estão sendo desmontados paulatinamente, em nome de um governo
que joga o país numa crise ainda maior que aquela que ele recebeu.
O próximo
presidente da república receberá um país numa situação de verdadeira terra
arrasada.
Qual é maior desafio
do Brasil daqui em diante?
O agravamento do
desemprego será a principal pauta, e se deve a duas questões: a primeira delas
é que nós desmontamos as cadeias produtivas mais dinâmicas, as que geram mais
emprego, que mantêm o nível de renda elevado. O setor de petróleo e gás, que
correspondia a 12% do PIB, foi praticamente desmontado. O setor de construção
civil foi fortemente impactado - os números relativos ao segundo trimestre que
acabaram de sair mostram mais uma retração forte no setor, que é forte em
empregos. O setor portuário também, grandes estaleiros foram fechados.
Há um
conjunto de setores da atividade econômica em que houve um grande desmonte, por
um lado por opção política, e por outro pela questão da Operação Lava Jato. A
operação não separou o joio do trigo. Ao fazer o correto enfrentamento do
problema da corrupção, ela deixou que empresas fossem à bancarrota. Permitimos
que desmontassem a cadeia nacional.
O segundo
fator do desemprego é o enfraquecimento da taxa de investimento na economia. O
grande fato desse segundo trimestre não é que a gente saiu da recessão - até
porque sair com 0,2% é uma verdadeira piada. O dado mais relevante é que a taxa
de investimento caiu pelo 13º trimestre consecutivo, e é a mais baixa da série
histórica, desde 1996. Hoje a taxa de investimento é de 15,5%, tão baixa que
sequer permite a recomposição do capital ou o enfrentamento da degradação do
maquinário. Ou seja, ela nem repõe o que vai ficando obsoleto. Isso é
importante porque mostra uma tendência: se você não tem investimento na
ampliação das plantas produtivas, só trabalha na capacidade instalada, você não
movimenta a economia. Hoje temos uma situação de imensa capacidade ociosa na
indústria porque não há consumo.
Veja, o
que permitiu o pequeno aumento de 0,2% no PIB foi justamente consumo das
famílias, que se deu pela liberação dos R$ 44 bilhões do FGTS. Isso
correspondeu a 2/3 da recuperação. Mas sobre isso aparece o problema de
desemprego crônico, com 15 milhões de famílias sem nenhuma fontes de renda.
Então foi algo passageiro, insustentável. Como é que a família vai consumir sem
ninguém para pagar, com um endividamento crescente? Não vai. Aí não é possível
empregar, e voltamos ao buraco.
O governo parecer
priorizar os juros financeiros à economia real. Como o ministro Henrique
Meirelles tem enfrentado esse dilema?
Bem, as taxas de
juros, no Brasil, são das maiores do mundo. Em muitos países, ela chega a ser
negativa. Agora eles editaram aquela medida que vai desmontar o BNDES, e
substituir a TJLP pela TLP, que, trocando em miúdos, vai substituir a taxa
subsidiada do BNDES por taxas de mercado. O Brasil tem as maiores taxas do
mundo - quem é que vai ter dinheiro para investir nessas condições?!
É uma
contradição gritante com o resto do mundo. Por que os países desenvolvidos vêm
todos traçando uma estratégia de reindustrialização? Todos eles apostam hoje
numa nova onda de industrialização como forma de garantir pujança na economia
mundial, porque entenderam que esse é o fator gerador de riqueza, de valor
agregado. Nós aqui temos uma situação de quase anomia. O governo Temer quer
instalar um liberalismo tardio, na contra-onda do mundo, querendo que nos
tornemos uma espécie de semi-colônia de economia primária. Enquanto todo mundo
protege a própria economia, nós entregamos a nossa.
O que está
por trás disso é uma visão de mundo. Esse pessoal neoliberal diz o seguinte: a
indústria não é fundamental para a riqueza de uma nação, é desnecessária a
existência de uma capacidade industrial para prosperar. Em outras palavras,
querem um país vendendo banana, vendendo commodities, e creem que assim vamos
nos ajustar às condições de mercado. Eles acham a indústria algo secundário, e
nós achamos o contrário, que sem indústria não há riqueza, porque ela é base da
agregação de valor, da geração de renda.
Parece um diagnóstico
de piora. O que devemos fazer para inverter essa tendência de aumento no
desemprego?
O Brasil precisa
urgentemente reestruturar as cadeias de dinamismo da economia. Precisamos
definir: quais serão os motores que permitirão que a economia volte a crescer?
É preciso recompor esses fatores, apostar no setor de petróleo e gás, na
construção civil, no agronegócio, nas cadeias já instaladas. Ao mesmo tempo, é
preciso a recompor a capacidade do Estado brasileiro de induzir o
desenvolvimento. Nós chegamos a uma situação em que o governo perdeu a
capacidade de ação - coisas como a Emenda do Teto e o fim da TJLP amarram o
Estado brasileiro, que sempre foi o indutor do desenvolvimento.
Nós
perdemos essa capacidade de comandar. É preciso reverter essas medidas e
reencontrar a capacidade de realizar investimentos! Hoje o Estado vive para
financiar o rentismo, para financiar o funcionamento da dívida pública. Nenhum
país pode ter perspectiva numa condição dessas, em que o próprio Estado vem
apresentando sinais de falência, vê órgãos públicos perdendo a capacidade de
funcionar.
Hoje, a
única coisa que tem sua remuneração assegurada é o financiamento da dívida
pública. Nenhum país tem futuro nessas condições.
Por Renato
Bazan - Portal CTB
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